Marxismo verde
Leia prefácio da obra de Guilherme Dourado sobre os jardins de Burle Marx
HUGO SEGAWA, ARQUITETO E PROFESSOR DA FAU-USP
Em seu centenário de nascimento, Roberto Burle Marx pode ser lembrado como uma persona. Livros recentes o reposicionam como um mestre da arte de receber, o refinado chef e apreciador da boa mesa. Ou cultivam narrativas de sua vida para leitores jovens, até com uma visão da sobrinha-neta sobre o tio-avô. Quando recém-falecido, não faltaram louvores sobre o arquiteto-paisagista, ambientalista, botânico, jardineiro, pintor, desenhista, gravador, tapeceiro, escultor, professor de pintura, designer de joias, cantor lírico, cozinheiro, gourmet, amigo - colecionando as aptidões mencionadas nos livros, artigos, resenhas e depoimentos sobre ele. Desse multifacetado e fértil perfil, não isento de afetividades e emotividades, talvez o aspecto menos examinado nos últimos tempos seja - paradoxalmente - o do arquiteto-paisagista. Não que a sua simbiose com jardins e plantas tenha deixado de ser o foco das atenções.
É um privilégio para qualquer artista que um livro como o da argentina Marta Íris Montero conheça versões em espanhol, inglês e francês por prestigiosas editoras, e que essas publicações estivessem disponíveis até em livrarias de aeroportos. Trata-se de um livro bonito pelas imagens, mas com palavras cristalizadoras de lugares-comuns sobre a sua obra. Também não é o caso de crer unicamente nos escritos do mestre, tão bem reunidos e comentados pelo seu discípulo José Tabacow em Arte & Paisagem. Entre esses extremos se situa a fortuna crítica de Roberto Burle Marx e seu paisagismo.
O escocês-norte-americano Ian McHarg - autor de um dos mais celebrados (como também criticados) livros de paisagismo do século 20, Design with Nature -, em sua autobiografia de 1996 prestou homenagem ao arquiteto-paisagista brasileiro: "Em 1954 havia dois candidatos pela honra de maior arquiteto-paisagista do mundo: Lawrence Halprin e Roberto Burle Marx. Há muito admiro Roberto Burle Marx porque ele sintetizou sua busca de arte com seu conhecimento de plantas. Ele entendeu a beleza da flora nativa, e elevou o uso das plantas brasileiras para uma forma de arte em seus projetos."
A construção internacional recente de opiniões sobre o arquiteto-paisagista brasileiro realiza-se a partir de recorrências. Janet Waymark dedica algumas páginas a Burle Marx, adotando a palavra "brasilidade" no entretítulo que abre suas considerações. Sem mais explicação, ela tomou emprestado o termo de um escrito introdutório de um livro organizado por Rossana Vaccarino, cujo significado foi apenas mais bem explicitado em uma antologia publicada por Marc Treib mais tarde. No Brasil, o quadro não é diferente: de modo geral, pode-se observar que os autores recentes se amparam quase sempre nas apreciações dos predecessores (como Pietro Maria Bardi, Flávio Motta, Jacques Leenhardt, Giulio Rizzo, Bruno Zevi, Mario Pedrosa, etc.), confinados a um repertório básico dos mesmos projetos paisagísticos para publicação.
Guilherme Mazza Dourado estava ciente dessas recorrências e circunlóquios quando se debruçou sobre Roberto Burle Marx. Goethe escreveu: "O mais tolo de todos os erros ocorre quando jovens inteligentes acreditam perder a originalidade ao reconhecer a verdade já reconhecida por outros." Dourado, como pesquisador e crítico, não renega seus antecessores. Também não deixa de repisar um conjunto de obras bastante difundido. Bem como se pode perceber sua simpatia com o mestre - por mais isenção que procure demonstrar em suas análises. Mas, ao preocupar- se em "jogar novas luzes no processo de revisão por que vem passando a obra de Burle Marx", é preciso recordar que esse trabalho, concluído no início do ano 2000, procede também da saturação dos chavões que circularam na década da morte do grande arquiteto-paisagista. Aos leitores com menos familiaridade, gostaria de chamar a atenção de alguns aspectos da contribuição de Dourado para a compreensão da trajetória e da paisagem de Burle Marx.
No capítulo Descoberta da Natureza, parece inevitável rememorar a "descoberta" da flora brasileira pelo adolescente Burle Marx no Jardim Botânico de Dahlem. Mas, para além da legendária "revelação" de viés milagroso com que se evoca habitualmente esse encontro, Dourado discute com mais acuidade e referências o substrato cultural que aprofunda a dimensão das relações entre a natureza e as atitudes do arquiteto-paisagista, desdobrando-as no tempo. A "brasilidade" apresentada na literatura internacional é posta em questão. É aqui também que ele resgata fragmentos de inéditos registros das célebres expedições botânicas de Burle Marx. As palavras do arquiteto-paisagista revelam seu olhar atento e extasiado para a paisagem, ao mesmo tempo que descrevem o triste episódio com o arquiteto e amigo Rino Levi, companheiro de incursões botânico-paisagísticas e parceiro em inúmeras obras.
A recuperação desses registros só foi possível graças à confiança depositada por Haruyoshi Ono e Fátima Gomes sobre o cuidadoso pesquisador, ao generosamente franquearem os arquivos da Burle Marx & Cia. Não fosse assim, teriam sido impossíveis as considerações desenvolvidas ao longo dos capítulos Estética Tropical e Criando Lugares. Neles, Dourado volta-se para momentos de inflexões e consolidação na trajetória do arquiteto-paisagista. Mas, diferentemente do usual, pela primeira vez são reproduzidos os desenhos originais de projetos clássicos do acervo de Burle Marx, particularizando todas as especificações vegetais. Dourado radicaliza um procedimento apontado por Flávio Motta, ao chamar a atenção do vocabulário vegetal como hipótese de análise das obras. Em sua diligência por fontes primárias, Guilherme ilumina outras preciosidades originais. Uma delas são as fotos das obras recifenses (1935- 1937) de Burle Marx zelosamente guardadas pela arquiteta-paisagista Gilda Pina (infelizmente falecida pouco depois de disponibilizar tão importantes documentos). A outra é o jogo de desenhos e pormenores da primeira, desconhecida e não-executada, proposta dos jardins do Ministério da Educação e Saúde (MES), no Rio de Janeiro, datado de 1938, com traçados retilíneos. Uma bela fotografia de Marcel Gautherot (reproduzida neste livro) do jardim realizado é a capa da edição do Journal of the Society of Architectural Historians que traz uma cuidadosa análise da historiadora de arte Valerie Fraser da Universidade de Essex. Se Fraser tivesse conhecimento dessa versão retilínea dos jardins, seguramente suas interpretações não poderiam ser conforme as publicadas. E essa versão irrealizada permanecerá como mais um dos enigmas indecifráveis da história da arquitetura e do paisagismo. Dourado localizou esse nunca visto anteprojeto em 1998. Por ironia do destino, pouco antes do falecimento de Lucio Costa, o chefe da equipe do projeto do ministério que poderia esclarecer o sentido desses desenhos. Pelo carimbo das pranchas (os dados que identificam o conteúdo dos desenhos), percebe-se como o período recifense e o jardim do MES, não obstante de feituras distintas, são de uma mesma fase do arquiteto-paisagista.
Difícil aquilatar o alcance da contribuição deste livro de Guilherme Mazza Dourado, posto que seguramente ele não poderia esgotar as análises sobre tão valioso material e tão fascinante tema. Muitas pontas seguem abertas. Mensura-se o valor de uma pesquisa justamente na sua potencialidade de semear dúvidas e problematizações sobre uma persona de quem parece tudo se conhecer, todavia ainda pouco se sabe. São revelações como as que Dourado traz e que outros trarão que me fazem cada vez mais convicto que no âmbito da arquitetura e do paisagismo, sem desqualificar o reconhecimento e a repercussão internacional de um gigante como Oscar Niemeyer, Roberto Burle Marx é a contribuição mais transcendental do Brasil para a cultura mundial do século 20.
Nota da Redação: Por motivo de padronização, foram suprimidas as notas de rodapé do texto. O livro Modernidade Verde: Jardins de Burle Marx (Senac/Edusp), de Guilherme Mazza Dourado,chega às livrarias na próxima semana .
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sexta-feira, 7 de agosto de 2009
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